23 March, 2007

Sentença de granito de Nietzsche

Torna-te quem tu és!

Tostoi em Guerra e Paz

É muito difícil, embora seja essencial, amar a vida. Amá-la mesmo quando estamos sofrendo porque a vida é tudo. A vida é Deus, e amar a vida é como amar a Deus.

Sêneca

Não existe vento favorável para quem não sabe para onde vai.

Que ser é este?

Que ser é este ser que chora e ri com a mesma facilidade com que ri e chora? Que ser é este que nas horas tresloucadas do dia faz tanto e depois percebe que nada fez? Que ser é este ser que ama outro ser? Que ser é este ser que odeia outro ser? Que ser é este ser que é bom e mau e nem percebe a linha fina que pode levar a um lado e ao outro? Que ser é este ser que quer ser e não sabe ser? Este ser é o ser humano.

22 March, 2007

Vila Rica

A noite avançava em Vila Rica. O silêncio imperava, tendo apenas o uivo do vento que de vez em quando soprava mais forte. Na rua, de repente, um grito. Mais uma leva de negros chegava ao vilarejo, e agora o som dos grilhões arrastavam-se rumo a alguma senzala. Mais força de trabalho para as minas. Fernando não conseguia conciliar o sono. Alguns meses antes, trocara o Rio de Janeiro pela Vila em busca de algo mais. Ainda lembrava-se de sua última conversa com o desembargador Alcântara: - Fernando, tens uma carreira brilhante pela frente! Tens consciência da loucura que queres fazer? - Sim, meu amigo. Estou decidido! Parto em viagem ainda esta semana! – Fernando olhou para Julião Alcântara desafiadoramente. - Gostaria de saber que bobagens andaram colocando nesta sua cabeça teimosa em Coimbra! Quando partiu, desejava arduamente a volta, ansioso em trabalhar para o Império, menino ainda que era, cheio de idéias e vontades! - Julião, nunca entenderás! Não vejo mais sentido em ficar atrás de uma mesa, em um gabinete, decidindo sobre coisas nas quais não acredito! Julião continuava inconformado. - Por que não vai a São Paulo, então? O que pretendes em uma terra de selvagens? Estás por acaso atrás do ouro? Não sabes que os veios esgotaram-se? Poucos são os que obtêm sucesso atualmente! Fernando caminhou até o amigo e colocou a mão sobre seu ombro esquerdo, olhando-o nos olhos. - Adeus, Julião! Escreverei a ti em breve, e contarei meus feitos e novidades. Minha ida a Vila Rica, nada tem com ouro, riqueza... Irei pela arte, Julião! Pela arte! O desembargador decidiu calar-se. Nada que dissesse, poderia restituir o juízo de seu bom amigo. Fernando estava firme em sua decisão. Fernando lembrou-se também do dia em que chegara. Para um lugar onde diziam existir tanta riqueza, o cenário era desolador. Os tempos não eram mais os mesmos e poucos ainda aventuravam-se em desbravar aquelas terras, palco de muitas lutas. Mineradores entravam em desespero ao depararem-se com as altas taxas de impostos que não podiam pagar. A comida era muito cara, já que ali nada era plantado. As provisões vinham de São Paulo, do Rio de janeiro, da Bahia... Nos primeiros dias, Fernando chegou a pensar que seu amigo estava certo. Jamais deveria Ter ido para lá. Filho de pais ricos, fazendeiros, não estava acostumado a passar necessidades. Seu pai era contra sua aventura pelo mundo e então ele decidira que se manteria sozinho, custasse o que custasse. Para sua sorte, uma semana após Ter-se instalado na Vila, em uma pensão onde alugara um quarto, conhecera um cavalheiro que foi a sua salvação. O casarão branco, de portas e janelas feitas de pesada madeira pintadas de azul, era simples, mas limpo e aconchegante. Na sala de visitas, onde fora feita a recepção, as tábuas largas e escuras do chão brilhavam. Lampiões de querosene tratavam de fornecer a claridade necessária ao ambiente, com seus móveis de madeira escura, rústicos, que ali, além de um balcão, constituíam apenas de dois bancos grandes, algumas poucas cadeiras e um tapete um tanto gasto no chão, para acomodar os viajantes enquanto não fossem atendidos, ou ainda para que pudessem ler ou fumar sossegados. E era neste ambiente que Fernando encontrava-se, na sala de visitas de sua senhoria, quando um homem, muito distinto pela elegância com que se vestia, aproximou-se dele. - Estás há pouco tempo em Vila Rica? Fernando assustou-se, mirando o recém-chegado e dobrando o folhetim que tinha nas mãos. Como demorava um pouco a responder, o outro continuou: - Perdoe minha falta de cortesia. Meu nome é Luís de Sá Saldanha, ao seu dispor. - Fernando Augusto de Lira. - Percebi que lia com interesse o pequeno jornal que tens em mãos... - Sim, estou tentando, além do que me contam, descobrir um pouco mais sobre o lugar onde escolhi para viver! O Sr. Saldanha sentou-se perto de Fernando, com a fisionomia simpática no rosto. Devia Ter seus trinta e cinco anos no máximo. A julgar sua vestimenta, um terno escuro, marrom, cabelos castanhos muito bem penteados, olhos no mesmo tom e um bigode fino que emprestava-lhe um ar sério, responsável, tinha certeza de não se tratava de um qualquer. Trazia um chapéu e uma bengala nas mãos. Fernando era bom em julgar o caráter das pessoas e não teve dúvidas de que tinha diante de si, um cavalheiro que olhava-o de frente, nos olhos, sem nada esconder. - É minerador? – Perguntou Luís. - Não! Sou escritor e poeta, embora tenha me diplomado nas leis em Coimbra! - Ora! Então temos aqui um doutor? Mas diga-me, que febre é esta que atormenta a mente de nossos jovens advogados, que insistem em tornarem-se poetas? - Isto eu não sei. Mas posso falar por mim! Eu era jovem e cheio de esperança e de idéias! Quando fui a Portugal estudar, pensei que poderia voltar e ajudar esta colônia, movido por um sentimento de justiça e de melhorar a vida das pessoas. Mas tudo mostrou-se muito diferente e digamos que fui arrebatado de um sonho bom para cair em puro pesadelo real! E eis que aqui encontro-me, a ler um folhetim em Vila Rica! E o senhor, que fazes para viver? Presumo que pela elegância que trazes, possui uma mina? O outro riu gostosamente da observação do recém-chegado. - Antes fosse, Sr. Fernando. Antes fosse! Sou fazendeiro. Possuo uma fazenda de cana de açúcar no interior de São Paulo. Um dia, movido pelas histórias que ouvia destas bandas, decidi vir e fiquei. O folhetim que lia me pertence. Importa-se se eu fumar? Aceita? – Fernando balançou a cabeça e aceitou o charuto que lhe era oferecido. O fazendeiro deu uma baforada e depois disse: - Se não és minerador, não vieste atrás de ouro, o que pretendes fazer em Vila Rica? - Ainda não sei. Nem mesmo sei se ficarei! A sociedade daqui é um tanto pior do que a que deixei no Rio de Janeiro. Francamente estou decepcionado! Vila Rica tem muitos problemas e ninguém se importa! Mais uma vez, Fernando provocou o riso de seu mais recente colega. - Sr. Fernando, por acaso tem aspirações políticas? - Pelo que tenho lido em teu folhetim, tanto quanto o senhor as têm! Confesso que o que tenho visto, têm inflamado meu peito de ideais e causas nobres. Porém, certas influências podem ser muito perigosas, especialmente no Brasil. O Marquês de Pombal tem sido muito duro conosco... - É verdade... – O Sr. Luís ficou pensativo por alguns minutos e ambos permaneceram em silêncio. – O que acha de ajudar-me com o folhetim? É claro que receberás uma quantia, embora eu não possa pagar-te grande soma, mas pelo menos teria dinheiro para necessidades básicas, como o aluguel e comida! Fernando sentiu seu coração iluminar-se. - Mas é claro que aceito! - Então estamos de acordo. Amanhã bem cedo passarei aqui para apanhar-te, Iremos conhecer a redação e impressão. Fernando assentiu. Ambos levantaram-se e apertaram-se as mãos, e o fazendeiro retirou-se.

Enquanto houver um entardecer

Rüdersdorf - Setembro de 1933 Era uma bonita tarde de Outono na Alemanha. As árvores tingiam a paisagem com suas folhas que pareciam Ter sido enferrujadas pelo tempo, onde um tom alaranjado dava um toque colorido nas casas cinzentas. Outras emprestavam às ruas um tapete de folhas secas e caídas, onde o mestre responsável pela decoração era o vento que soprava tranqüilo, encarregando-se do transporte para suas frondosas amigas. Os pássaros cantavam, aninhados em galhos ou nos fios de postes, como um coral atiçado, alegre e afinado. Pessoas voltavam de seus trabalhos, algumas apenas caminhavam, outras em suas casas, aprontavam-se para receber a noite. Já houve tempos melhores. Mesmo o bonito cenário que se descortinava naquela cidade, não apagava a crise da nação. Depois da Primeira Grande Guerra, tudo estava muito difícil. Embora não houvesse uma reconstrução física, havia mais do que isso para ser adquirido novamente: o orgulho. O momento político era instável. Três partidos travavam entre si uma luta ferrenha pelo poder. Um deles estava em ascensão e seria responsável por uma grande mudança em toda a Europa.
A família Levi vivia em um bairro onde a maioria das casas pertencia aos judeus. O patriarca era proprietário de um próspero comércio na região, o que lhes possibilitava uma vida com conforto e até certo ponto, burguesa. Uma vida, que muitas famílias alemãs não estavam conseguindo. Neste dia, uma Sexta-feira, a filha mais velha do casal, ao chegar em casa, notou as preocupações estampadas no rosto de sua mãe. A Sra. Levi estava na cozinha com uma criada, preparando a refeição para o Shabbat. A filha, Marta, tinha dezesseis anos. Um profundo pesar, sem saber ao certo o motivo, oprimiu seu coração jovem. Quando o pai chegou, juntamente com seu irmão mais novo, a mesa estava posta e logo o sol iria se pôr.
- Mamãe, o que está acontecendo? Algo não está bem?
- Não se preocupe querida. Seu pai e eu daremos um jeito! Onde está Friederich? Já lavaram as mãos?
- Lá em cima, estudando! Já lavei e papai também. Vou chamá-lo. - O que há com seu irmão? Tem estado muito calado... – O rosto da Sra. Levi refletia toda a sua apreensão com o filho. - Não sei, mamãe. Friederich não tem se sentido muito bem nestes últimos dias. Marta chamou o pai e o irmão e a mãe acendeu as duas velas brancas postas sobre a mesa, e seu pai iniciou o Kiddush sobre o vinho e os challahs. Após todas as bênçãos e os cerimoniais, iniciaram o jantar em silêncio. Normalmente aproveitavam esta ocasião para refletirem em família, agradecer a Deus e idealizarem as boas ações e a boa conduta para a próxima semana. Mas nesta noite, o silêncio imperou, mostrando a todos que algo estava por vir. Marta entendeu que algo estava mudando e que talvez aqueles dias nunca mais fossem como antes. Marta pegou seu bordado e continuou o trabalho. Dois meses haviam se passado desde que tivera aquele pressentimento ruim. Não entendia a agitação dos pais, que conversavam entre si, temerosos de algo. Olhou mais uma vez para a mesa, onde estavam sentados, escrevendo e discutindo em meio à muitos papéis. Também não entendia porque ela e seu irmão não podiam mais ir à escola, e quase já não saíam de casa. Estudavam em grupos judaicos, com outros garotos e garotas de seu bairro. O que freqüentavam, ficava atrás da sinagoga da região. Ela ainda tinha viva na memória as lembranças de garotos chamando-os de imundos e atirando-lhes pedras sem nenhuma explicação razoável quando voltava do açougue outro dia. Sabia que já tinha idade suficiente para saber o que estava acontecendo e quem sabe ajudar os pais, mas o silêncio deles magoava-a profundamente.
Colocou vagarosamente o bordado de lado e levantou-se, esticando o vestido amassado. Com sua pele alva e os cabelos castanhos claros, levemente cacheados, da mesma cor dos olhos grandes, tinha uma beleza fora do comum. Já possuía um corpo esguio de mulher, mas com a ingenuidade própria de sua idade. Somado ao seu aspecto bonito, ainda existia a alma boa e caridosa, responsável, preocupada com a família. Marta sonhava com seu futuro como toda moça normal. Resplandecia nela toda a candura, meiguice e valores que desde cedo, havia herdado de seus pais. Ela caminhou até a cozinha e sentou-se perto do fogão, ligando o rádio. “Já é hora de tomarmos uma decisão e acabarmos com essa opressão que estamos sofrendo! Somos uma raça superior e exigimos o devido respeito! Franceses e ingleses julgam-se melhores que nós, mas nós sabemos que somos melhores! São os germânicos! Os alemães! A raça pura ariana! E quem tem tomado conta de nosso império? Sim, porque a Alemanha é um império! Os judeus, que querem manter a Alemanha subordinada e fraca! Onde está nosso dinheiro? Com essa raça de fermento em decomposição! Os judeus são o mal, e o mal deve ser extirpado da face da terra! Eu, Adolf Hitler, digo à vocês, alemães: devemos instituir um estado novo!”
Marta desligou o rádio horrorizada. Quem era esse homem que falava coisas horríveis sobre os judeus? Nada daquilo era verdade. Eles amavam a Alemanha, era seu lar. Isso explicava porque vira tantos militares nas ruas. Ela tinha bem viva na memória a suástica em bandeiras colocadas em várias fachadas de órgãos públicos e algumas casas. Eram soldados deste tal de Hitler, como os garotos que atiraram pedras outro dia, usando uniformes também com a suástica. Que segundo seu pai, faziam parte de algo que ela não sabia exatamente o que era e se chamava HJ. Era isso o que os alemães faziam com seus filhos. Sim... Já ouvira falar deste Hitler. Liderava um partido, antes de o presidente declará-lo Chanceler Alemão. Mas por que este discurso torpe? Parou na porta da sala e olhou para os pais.

O Mosteiro

Os sinos badalavam as cinco horas da tarde daquele dia. A construção de pedra silenciosa destacava-se na colina, onde os últimos raios de sol brincavam no cinza das paredes altas. Árvores circundavam o mosteiro, formando quase uma barreira verde de proteção. O vilarejo mais próximo dali, estava há sete dias de caminhada, e raramente alguém passava por aquelas bandas. Vez ou outra, um viajante perdido pedia abrigo aos monges e quase sempre, eram bem recebidos. A esta hora, um grupo estaria estudando na biblioteca, outro estaria na capela e um outro ainda, terminando suas tarefas diárias. Todos os dias, as rotinas repetiam-se. De manhâ, a missa, a oração e depois os afazeres de cada um. A vida dentro daquele recanto, transcorria sossegada e monótona. Frei Anselmo, circundava o jardim lendo alguns salmos em voz baixa, como fazia todas as tardes. Em volta do pátio, longos corredores e bancos de madeira maciça envernizados, era tudo o que tinham ao redor. O mosteiro era bastante simples, mas de uma limpeza impecável. O mundo parecia não existir para aqueles homens que ali viviam, enclausurados a tantos anos, dedicando suas vidas a Deus. Frei Anselmo olhou para o céu. O sol estava quase desaparecendo e tons vermelhos e laranjas tingiam o que restava da vista do poente. Agradeceu a Deus, por um dia tão maravilhoso e seus olhos umedeceram-se ligeiramente. Olhou novamente para o livro em suas mãos. Tantos anos de sua vida dedicara às palavras do Senhor... Mas aquele era o seu mundo, e o jovem Armando perpetuaria seus ensinamentos. Sim, ele era seu pupilo predileto. Ensinava-lhe tudo o que aprendera sobre a religião durante os quarenta anos que ali permanecera. Sim, era hora de deixar o seu legado. Precisava desesperadamente ensinar o que sabia. A cada dia, sentia seu corpo mais cansado e já andava e respirava com alguma dificuldade. Não era o monge mais velho da ordem, mas sem dúvida, era o mais querido. Quantas e quantas vezes não aconselhara os jovens monges em suas dúvidas vocacionais? Muitos o ouviram, outros perderam-se pelo mundo afora, seguindo seus caminhos, longe da vocação. Era antes de tudo, um sábio. De sua boca, jamais ouviriam uma blasfêmia, ou uma palavra de repreensão. Procurava sempre se amparar na justiça divina. E todos ficavam extasiados com o seu sermão durante a missa matinal. E agora, de uma hora para outra, poderiam perder seu mestre e guia espiritual. Armando era um dos monges que mais acompanhava Frei Anselmo em suas horas intermináveis de estudo e reflexão. Costumavam conversar horas e horas sobre os mais variados temas, discorrendo questões e respostas para o sentido da vida e seus fatos. Embora jovem, tinha um semblante tranqüilo, sereno, e já carregava dentro de si, um conhecimento grandioso sobre a religião. Assim como seu mentor, era sensato e justo. Entrara para a ordem aos dezesseis anos e agora, aos trinta, era capaz de fazer um sermão tão apoixonado e eloqüente, que podia fazer qualquer um chorar de emoção. E o velho homem orgulhava-se disso. Afinal, seu trabalho não teria sido em vão. Desde que entrara para o mosteiro, Armando nunca mais vira o mundo. Lembranças de sua infância, pareciam longínquas. Não tinha idéia de como o mundo estava, as pessoas... Raramente recebia uma carta, e quando esta chegava, era de seu irmão, que vivia na Suiça. E mesmo assim, André pouco revelava, enfatizando apenas que sua família estava bem. Frei Anselmo olhou mais uma vez para o cé. Já estava quase escuro. Era hora de recolher-se em sua cela e rezar pelas almas da terra. Antes dirigiu-se a Armando, que ia em direção ao pátio interno. - Armando... Gostaria de trocar algumas palavras com você antes de me recolher. - Estou a seu dispor, Frei Anselmo.