23 May, 2011

Thomas Moore

A liberdade é para poucos despertos.
A única palpitação que ela causa
é quando um coração indignado para,
mostrando que ela continua viva.

Oscar Wilde

Não existe pecado a não ser a estupidez.

28 February, 2011

Assassinato na Torre

A Sra. Land caminhou um pouco pela sala pensativa.


- Bem... Não sei se fui a última pessoa. Minha consulta deve ter terminado por volta de quatro, quatro e meia. Passei em uma quitanda depois disso, do Sr. Tomaz que fica bem próximo ao consultório. Pode perguntar o que quiser.

- Por acaso notou algo de diferente no Dr. Webster durante a consulta?

- Francamente, não me lembro Sr. Holmes. Só sei que passei com ele para falar de umas dores que tenho sentido ultimamente no estômago. A púnica coisa que notei foi que parecia um pouco impaciente. Atendeu-me muito rápido sendo que costuma levar quase uma hora em cada consulta. Ele gostava de falar com os pacientes.

- Notou se olha constantemente para o relógio ou algo parecido? Ele fez ou disse algo para apressá-la a se retirar?

- Não... Acho que não.

- Obrigada Sra. Land.

- Volte sempre detetive.

Apesar da amabilidade de Bárbara Land, havia alguma coisa nela que Holmes não aprovava, mas não sabia dizer o quê exatamente.

Holmes decidiu conversar um pouco com seu amigo para ver se ele tinha alguma idéia do que fazer. Além do mais, ainda era cedo. Dirigiu-se para a casa de Watson a fim de ouvir e ser ouvido.

- Não sabe que bem me faz sua visita, Holmes.

- Estava precisando de incentivo... Sabe como é, quando bate o desânimo, a gente tem vontade de largar tudo...

- Não fale assim Holmes! Logo, logo solucionará este caso, você vai ver! É bom mesmo. É bom nos reprovarmos de vez em quando, analisar as próprias atitudes, procurar aperfeiçoar-se... Você vai ver!

- É... Talvez você tenha razão.

- Mas vamos voltar ao caso, Holmes. Não estou fazendo nada, se você quiser companhia para as investigações estou a seu inteiro dispor.

- Será um prazer, Watson! As vezes você é minha consciência e meus pés no chão, não é mesmo?

- Ótimo! Primeiro o corpo foi encontrado na Torre de England às seis horas da manhã, mas calcula-se que a morte tenha ocorrido entre duas ou três horas pelo rigor do corpo. Mas o que um homem, ainda mais um médico estaria fazendo à esta hora em uma torre? Possivelmente, encontrando-se com o assassino, que não hesitou em tirar-lhe a vida. Porém, poderia também estar indo até a casa de um paciente, já que é um médico, quando foi abordado no caminho e obrigado a seguir para a torre. A autópsia indicou que o tiro foi à queima roupa. Mas, segundo me contou, parece que ele não tinha inimigos, o que indica ou supõe-se, que o assassino pode ser um desconhecido, ou alguma pessoa com mágoa antiga, alguém que ele tenha prejudicado ou arruinado no passado.

- Muito bom Watson! Você e sua mente invejável! Absorveu os pormenores.

- Nem um pouco comparada a sua, Holmes.

- Bem, chega de conversa e vamos interrogar o próximo paciente da lista.

- É um tal de James Wonder. Esteve no consultório pela última vez um dia antes da morte do Dr. Webster.

25 February, 2011

Assassinato na Torre

Holmes não havia feito grandes avanços. O próximo passo seria fazer uma visita a cada paciente, mas tinha receio de mais buscas frustradas. Como já era um pouco tarde, decidiu deixar este passo para o dia seguinte.


Holmes acordou bem cedo e logo estava no consultório do médico. A lista não era tão grande, de acordo com a caderneta de consultas. A maioria de seus pacientes consistia de mulheres, com apenas sete homens e três crianças. Isso era muito estranho devido ao conceito que ele tinha. Estava preparado para uma longa lista e intermináveis depoimentos. Tudo ali já havia sido remexido pela polícia sem sucesso, mas o inspetor fora claro ao pedir que nada fosse retirado até que Holmes pudesse olhar tudo. Aproveitou para verificar se algo não tinha passado despercebido.

O consultório encontrava-se em grande bagunça. Mesmo assim, deu uma olhada nas gavetas e encontrou apenas recibos. Um deles chamou-lhe a atenção, datado de 26 de julho de 1860 e estava em nome de uma mulher: Bárbara Land. Havia também anotado no mesmo recibo, o endereço da paciente. Holmes sabia que uma nova esperança brotava. Viu que a mulher fazia parte de sua lista e seria a primeira que visitaria.

Tocou a campainha do nº 45 da Av. St. William. Uma mulher de mais ou menos trinta e cinco anos atendeu-o.

- Boa tarde, esta é a casa da Sra. Land?

- Quem deseja falar-lhe?

- Detetive Holmes.

- Oh! Entre, por favor.

- Obrigado.

O ambiente era bem aconchegante. Havia uma lareira na sala que era dividida em dois ambientes com uma sala de jantar, os dois muito bem decorados, mais pelo bom gosto, pois a casa era desprovida de luxo. Mas notava-se que quem quer que tivesse escolhido os móveis, teve muito bom gosto. Mal tinha acabado de sentar-se e uma mulher de aparência agradável apareceu na porta, que devia dar, já que um cheiro delicioso de bolinhos vinha de lá, na cozinha.

- Em que posso lhe ajudar Sr. Holmes?

- Será que poderia responder a algumas perguntas, se não for incomodá-la?

- Mas é claro que não! Suponho que seja a respeito da morte do bom doutor, não é?

- Sim... Pelos registros que encontrei em seu consultório, a senhora pode ter sido a última pessoa que viu o médico ainda com vida, antes do crime.

Assassinato na Torre

II

As investigações

Na manhã seguinte, Holmes dirigiu-se à biblioteca Municipal de Londres.

- Bom dia, Srta. Winiston. Gostaria de checar artigos de jornais de 1885.

- Bom dia, Sr. Holmes. Pode sentar-se em qualquer uma das mesas, que pegarei os exemplares que encontrar em nossos arquivos para o senhor.

- Obrigado, senhorita.

Depois de passar a manhã inteira na biblioteca, Holmes decidiu acabar com aquela infrutífera busca. Andou pelas ruas vagando em pensamentos. “Por que alguém mataria um médico que aparentemente não conhecia muita gente na cidade? O que o assassino ganharia com isso? E por que deixaram o corpo em uma torre que várias pessoas visitam? Não faz sentido para mim. Melhor dar uma olhada na casa do homem.”

Chegando à casa do Dr. Edward Webster, Holmes procurou uma pista nas coisas pessoais do médico, gavetas, armários, pastas... A única coisa que encontrou e que poderia ser uma boa pista foi fotos de Webster com outro médico, muito amigo dele, ao que parecia, o tal Dr. Foster como mostrava a inscrição atrás da fotografia e algumas outras com pessoas que não pareciam ser inglesas. Isso inquietou a mente aguçada de Holmes. Quem seriam aquelas pessoas? Que tipo de vida o Dr. Webster havia escondido da sociedade? Holmes sabia que a primeira coisa a fazer era uma visita ao Dr. Foster e ver se descobria mais alguma coisa, pois na velocidade em que as coisas iam, levaria anos para solucionar este caso. Apesar das fotografias estarem amareladas pelo tempo, a com Foster parecia bem recente. Pretendia também descobrir quem eram aquelas pessoas com algumas investigações.

Eram mais ou menos duas horas da tarde quando Holmes chegou ao consultório do Dr. Foster.

- Em que posso lhe ser útil, detetive?

- Soube da morte de Edward Webster, doutor?

- Sim, senhor...

- Holmes, pode me chamar de Holmes.

- Holmes... Já ouvi a seu respeito antes. Também vejo seu nome nos jornais.

- É... A imprensa algumas vezes divulga fatos sobre minhas investigações.

- Imagino... Um detetive tão famoso... Só pode ser bem conhecido. Bem, Edward e eu éramos velhos amigos. Uma perda irreparável para a humanidade. Excelente médico!

- O senhor tem conhecimento se alguém não gostava do Dr. Webster?

- Não, não... Ele era tão bom para seus pacientes, para as pessoas em geral, que não creio que tenha inimigos.

Holmes retirou do bolso de seu casaco xadrez as fotos que havia trazido consigo e mostrou-as ao Dr. Foster.

- Estas fotos estavam na casa dele. Reconhece alguém? Por favor, tente identificar alguma destas pessoas. Por acaso ele alguma vez comentou sobre família, seu passado...

- Éramos amigos, mas Edward era muito reservado quanto à sua vida particular. Costumávamos jogar cartas ao menos uma vez por semana, mas se a conversa tomasse o rumo particular, ele mudava de assunto, disfarçava... Por consideração a ele, eu não insistia. A conversa normalmente girava em assuntos médicos, científicos, coisas do gênero.

- Muito obrigado, doutor. Sua ajuda foi apreciada. Se houver necessidade, posso voltar a procurá-lo?

- Mas é claro! Se eu puder ajudar em algo, farei com imenso prazer. Alguém que mata uma pessoa como Edward, não pode ficar impune.


- Até mais. Mais uma vez, obrigado.

Assassinato na Torre

I

O Assassinato

Em uma fria noite de 1860, na cidade de Londres, acontecia mais um ilucidável caso para o melhor detetive inglês que o mundo já viu: Sherlock Holmes. A polícia não tinha nenhuma pista e por isso o caso se tornava mais difícil e estranho, porém não impossível para Holmes. O chefe de polícia apenas disse se tratar de um médico, sem inimigos... Sem qualquer antecedente que pudesse colocá-lo em perigo de alguma forma.

Holmes, ao sair da Scotland Yard, tinha a cabeça povoada de perguntas. Por que alguém mataria um médico que ajudava as pessoas? Embora fosse particular, atendia os mais necessitados sem cobrar a consulta. Assalto? Não, a hipótese já havia sido descartada. Seus pertences como carteira, relógio, não haviam sido tocados, motivo pelo qual logo descobriram a identidade do cadáver. Holmes atravessou a rua, olhou para o Big Ben e olhou seu próprio relógio de bolso. Perfeito. Seguiu adiante.

Chegando em casa, seu velho amigo o aguardava:

- Meu caro Watson, a que devo o prazer de sua visita?


- Venho saber notícias sobre o caso do médico que já corre solto por toda Londres. Achei que gostaria de falar a respeito.

- Bem, sobre o caso, não há pistas. E estava mesmo precisando conversar um pouco. É um enigma. Ninguém sabe de nada, ninguém viu nada, estou em uma encruzilhada, Watson.

Watson olhou para o amigo.


- Onde está seu otimismo, Holmes? Até parece que está diante do caso de Jack, o Estripador.

- Estou começando a achar que sim. – Enquanto isso acendia um cachimbo, marca registrada de Holmes. Ele era o retrato de um detetive londrino. Longa capa xadrez, chapéu parecido com o de um jóquei, no mesmo tecido da capa. – É isto mesmo, Watson!
- O quê?
- É claro como o dia! Ninguém reparou em um fato muito estranho, Watson. Apesar de muito bondoso, este médico sempre viveu sozinho e antes de chegar a Londres, ninguém sabe sobre seu passado. De onde veio ou o que fazia... Ele não possuía inimigos aqui, mas quem pode garantir quanto ao que ele deixou para trás? Sei disso, porque chequei os arquivos na Scotland Yard e conversamos com alguns moradores vizinhos.
- Você é um gênio, Holmes!
- É elementar meu caro Watson.

Criaturas da Noite - O início

Alex levantou, trocou-se e encontrou o tio na sala de visitas. Embora tivesse visto sua namorada no dia anterior, uma saudade imensa oprimia seu peito. Mas não era somente a saudade que o deixava triste. Era sua condição perante sua amada. Alex sabia que o certo seria romper o namoro e deixá-la livre. No entanto, não conseguia abrir mão deste amor. Como poderia atravessar os séculos sabendo que sua condenação ia além de sua imortalidade, mas também da privação do único motivo pelo qual valia a pena continuar.

Contar a ela a verdade seria loucura. Afinal, as pessoas não acreditavam em vampiros. No entanto punia-se com um sentimento de culpa por esconder seu passado de Elen. Mas era necessário, pelo menos por enquanto.

15 February, 2011

Amor é libertação

Quem ama é a pessoa mais livre do mundo. O amor não aprisiona, liberta. Quem ama comete loucuras, travessuras... O amor é assim. Dá asas a imaginação, leveza ao coração e é cúmplice da paixão.

07 February, 2011

Labirinto

A vida é como um labirinto... Você entra nela, anda, anda... Mas nunca sabe se conseguirá achar a saída.

Criaturas da Noite - O início

Ivan e o sobrinho chegaram ao flat em Moema onde residiriam nos próximos dois meses. Ele não poderia passar muito tempo aqui, pois um país tropical com temperaturas altíssimas e um sol escaldante era a última morada que poderia escolher. A hora da visita não poderia ser pior. Em pleno verão. Já estava imaginando o dia seguinte como seria... Por isso havia agendado a reunião com o grupo que estava interessado perto das seis da tarde. Assim poderia parar o carro no subsolo e até quie entrasse, fizesse a reunião e saísse, já seria noite. Longos anos passados na escuridão, vivendo noturna e sorrateiramente, aguardando um sentido para continuar neste mundo e ele finalmente aparecera.

Olhou para o celular e para o cartão quer recebera de Ana. Seria muito cedo para ligar? O dia mal raiara e lá estava ele, com aquela angústia em ouvir a voz melodiosa novamente. Ele precisava se concentrar. O tempo era curto para conseguir o seu intento. Precisava da aproximação, mas não poderia assustá-la. Por sorte havia o relacionamento de Alex, que serviria de desculpa para forjar algumas situações. Ivan sempre planejara cuidadosamente cada um de seus passos. Por isso sobrevivera a vários anos no anonimato, apesar de sua enorme riqueza. Era necessário. Forjar herdeiros, continuar a administração dos bens, assumir novas identidades. Tudo isso não era nem um pouco fácil. Sua única companhia era Alex. Ele, que foras o único membro de sua família que sobrevivera a um ataque no século XV. Era o filho que não tivera, seu mais leal amigo e querido ente.  

04 February, 2011

O teu riso - Pablo Neruda



Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

26 January, 2011

Criaturas da Noite - O início

- É um prazer conhecê-lo, Ivan. - Ana olhou para a sobrinha com um sorriso. - Então vamos, querida? Tenho certeza de que tem muitas coisas para me contar. - Depois olhou rapidamente para Ivan e abriu a bolsa para procurar o cartão do estacionamento. - Vocês precisam de carona? Quer que os deixe em algum lugar?

Ivan sorriu, sentindo o embaraço injustificado dela.

- Agradeço a oferta, mas um motorista vem nos buscar e já deve estar nos esperando. Estaremos hospedados nos Jardins e se não se importar, gostaria de entrar em contato amanhã ou depois para marcarmos um jantar. Poderia fazer a gentileza de apresentar a mim e meu sobrinho os bons restaurantes da noite paulistana.

Ana sentiu-se constrangida. Se dissesse não, poderia parecer descortês. De alguma forma, aquele homem a perturbava e não estava a fim de descobrir porquê, mas estava em uma saia justa. É claro que a sobrinha encontraria o namorado. A ela, não restava ter que aguentar algumas horas com o tio.

- Tudo bem. Creio que Alex deve ter o número... Mas espere! - Remexeu de novo na bolsa e encontrou um cartão, entregando-o a Ivan. Pode me encontrar no celular. - E pegando no braço de Elen. - Boa noite e nos vemos em breve.

Ivan balançou o cartão.

- Estarei ansioso. Boa noite Ana. Boa noite Elen.

Ana andava apressada e Elen reclamou. Só queria sair dali o mais rápido possível. E tinha que ter uma conversa longa com a sobrinha. Agora entendia porque ela quisera vir a São Paulo primeiro e não para a casa dos pais. Quando estavam dentro do carro, Ana deu a partida sem dizer uma palavra. Quando já estavam na estrada, sentido São Paulo, Ana olhou de relance para o carona.

- Quando vai começar a me dar explicações? - Foi a pergunta direta que fez.

- Tia... - Elen choramingou.

- Elen, sua mãe vai me matar quando souber desta história, pois ela me ligou pedindo que tirasse de sua cabeça a idéia de ficar aqui. Defendi dizendo que não tinha importância. Agora me diga: como vamos explicar a sua mâe que o motivo de querer ficar aqui é porque trouxe um namorado a tiracolo?

Elen suspirou. Sabia que enfrentaria algo assim. E preferia mil vezes que fosse com sua tia, do que com sua mãe.

- Tia... Pedi para vir para cá antes de saber que Alex viria. Ivan decidiu de última hora e Alex quis acompanhá-lo. Ele viria de qualquer forma e quis me acompanhar. Juro tia! Estávamos em sua casa no final de semana conversando depois do jantar e estava falando de você, do seu trabalho e mostrei uma foto sua no meu laptop. Ele disse que viria no mesmo vôo que eu e Alex decidiu que também viria...

- Está dizendo a verdade?

- Sim, tia.

Ana acreditou. Não havia motivos para desconfiar de Elen, que sempre lhe dissera tudo o que pensava e que lhe vinha a cabeça. Inclusive nunca tivera reservas para conversar com ela sobre qualquer assunto.

- Bem... Está com fome?

- Muita!

- Então vamos parar em algum lugar e comer algo. Amanhã, depois que tiver descansado um pouco, conversaremos sobre este assunto.



Ivan e Alex entraram no carro escuro luxuoso que os aguardava em frente a plataforma de desembarque. Ivan relutara em vir ao Brasil, mas depois de ver a foto da tia da namorada do sobrinho, não pensou mais em nada. De alguma forma, sabia que tinha de protegê-la, cuidar dela e não sabia por onde começar. A idéia de abrir uma filial de sua empresa no país não era má, já que era do conhecimento de toda a Europa a franca expansão e estabilidade da economia brasileira. Por que não investir? Mas o motivo principal era aquela morena de cabelos longos e olhos amendoados.

17 January, 2011

Criaturas da Noite - O início

Elen era sua única sobrinha. A irmã era bem mais velha que Ana e engravidar não fora fácil. Ao contrário de Ana, Amélia era uma mulher pacata, talhada para o lar, que não se conformava como Elen poderia ter escolhido o trabalho no lugar de uma família. Ana tinha trinta e dois anos e estava sozinha. Seus relacionamentos sempre foram difíceis. Ela se esforçava, mas quando acabavam em fracasso, achava que sempre tinha uma grande parcela de culpa. Seu nível de independência era alto demais para alguns homens. Isso os amedrontava.

Ana acabou seu café e voltou para o Jornal. A tarde passou tranqüila. Seu celular tocou perto das cinco da tarde. Ana deu um suspiro e atendeu a ligação.

- Olá Amélia...

- Ana! Tudo bem? Vou falar rápido, sei que ainda está no trabalho. Tente convencer Elen a vir para casa. Ficou tanto tempo longe... Isso não tem sentido!

Ana sabia que Amélia estava magoada com a filha.

- Amélia, posso tentar, mas não vou obrigá-la... Estamos no início de Janeiro e se ela quer passar as férias aqui, não vejo motivos para não fazê-lo. Por que você e Pedro não vem no final de semana?

- Verei com ele... - Ana ouviu o suspiro de Amélia.

- Amélia, Elen ficará bem. Ela agora está uma moça e com certeza voltou diferente. Te ligo depois de apanhá-la, está bem?

- Ok. Beijo.

- Beijo.

Ana desligou e ficou pensativa. Como estaria a sobrinha? Falavam-se muito pelo computador e Ana sabia que ela havia feito um curso de moda, falava um francês razoável, pois aplicara-se muito em aprender a língua e que havia cortado o cabelo com a última tendência parisiense. Um corte curto e repicado que caira-lhe muito bem. Ana olhou o relógio pela milésima vez naquele dia. Hora de buscar a sobrinha. Queria chegar com antecedência ao aeroporto, mas sabia que teria que fazer milagre. Como sair quase as seis da tarde, ter que enfrentar a Marginal e não pegar trânsito? Impossível! Olhou o mapa pelo compuatdor e decisiu fazer um caminho alternativo.

Enquanto aguardava no portão de desembarque do aeroporto, Ana observava a multidão que andava em todos os sentidos. Pessoas com suas bagagens, familiares buscando os seus, como ela própria. O auto falante já havia anunciado a chegada do vôo de Elen e ela sabia que a sobrinha deveria estar trazendo muita coisa depois de um ano. Uma meia hora depois, Ana a avistou. Elen estava linda, no final da adolescência, tornando-se uma bela mulher. Ana não deixou de notar que dois homens a acompanhavam. Um devia ter mais ou menos a idade de Elen e o outro, uns trinta e oito anos de idade. Ana prendeu a respiração. Nunca havia visto um homem tão bonito. Cabelos escuros, olhos penetrantes, de um tom amêndoa esverdeado, incomuns. O rapaz devia ser filho ou parente, pois era muito parecido com ele. A palidez tênue de ambos chamava um pouco a atenção, fazendo com que a aparência de ambos parecessem um pouco etérea. Falavam em francês com Elen, que quando avistou a tia, largou o carrinho com as malas e correu ao seu encontro para abraçá-la.

- Tia Ana! Que saudade!

- Elen, como está linda! Que saudade de você também! - Ana olhou-a dos pés a cabeça com orgulho e notou a aproximação dos dois homens que acompanhavam Elen.

- Tia, quero apresentar-lhe duas pessoas... Este é Alex Vlasi e seu tio, Ivan Vlasi. Conheci-os em Paris e Alex é meu namorado.

Ana gelou. Namorado? O que Amélia diria sobre isso? Em Paris? O nome dos dois não tinha nada de francês. Elen teria que lhe explicar tudo direitinho.

Alex aproximou-se dela e disse uma saudação em francês. Ela acenou com a cabeça. Porém, Ivan adiantou-se, pegou a mão que ela estendia e beijou-a sem desviar os olhos dos seus.

- Ivan ao seu dispor. - Disse ele em português, perfeito, com um sotaque que soou delicioso aos ouvidos de Ana.

- Tia, Alex não fala quase nada em português, mas Ivan veio ao Brasil porque vai abrir uma filial de sua empresa aqui. Por isso estudou português e o fala fluentemente.

- Oh! - Disse Ana. - E qual é sua nacionalidade, senhor Vlasi? Não possui um nome francês. Desculpe minha curiosidade.

Ele continuava olhando-a com aqueles olhos penetrantes.

- Nasci na França e vivi praticamente a vida toda lá, mas minha descendência é romena. E por favor, me chame de Ivan.

16 January, 2011

Criaturas da Noite - O início

Olhou o relógio rapidamente. Eram quase nove horas da manhã. Ana correu para a sala do editor chefe, esperando levar um puxão de orelhas pelo atraso. Porém, surpreendeu-se ao ver que ele estava de bom humor e pronto para sair.


- Ana! Que bom que poderemos falar antes que eu saia. Preciso de uma de suas geniais matérias para publicar ainda este mês. Escolha o tema que quiser... Qualquer um! Gostaria de ter novamente um jornalista premiado. Mas saiba que pedi o mesmo a toda equipe... Portanto, o esforço será em dobro.


Ana sorriu. Prêmios aos jornalistas rendiam mais vendas, mais leitores, obviamente mais dinheiro.


- É claro Paulo! Pode deixar comigo. Vou arrasar!


Ana pensou que na verdade não estava muito certa disso. Escrever era pura inspiração e mesmo que tivesse um bom tema, o que ainda não tinha, não significava que apenas isso bastasse para uma grande matéria. Era mais do que isso. Escrever exigia as palavras certas nos momentos exatos para prender o leitor. E ultimamente a inspiração a havia abandonado. Talvez porque seus dias não estivessem sendo muito alegres ultimamente.


A hora do almoço chegou depressa. Ana andava pela calçada observando o trânsito do meio do dia. Esta cidade nunca parava. Carros e motos por todos os lados em uma luta desenfreada por espaço e por chegar primeiro. Ana já havia feito uma matéria sobre o assunto quando cobriu um jornalista em férias. Os brasileiros insistiam em usar seus carros como armas. Logo chegou ao restaurante por quilo que ficava próximo ao Jornal, onde sempre almoçava quando estava no escritório e não na rua, procurando temas. Este dia, apesar de ter iniciado um pouco conturbado, era especial. Ana iria até o aeroporto de Cumbica buscar sua sobrinha Elen que chegaria da França dali algumas horas. A garota de dezessete anos passara um ano estudando no país e insistira em ficar com ela antes de seguir viagem para a casa dos pais no interior do estado, em Ribeirão Preto. Sua irmã Amélia e seu cunhado Pedro haviam se mudado quando ele fora transferido pela empresa em que trabalhava. O cargo dele era alto e o salário excepcionalmente bom. Por isso conseguira enviar a filha para a Europa.

Pensamento do dia...

Não sei o que fazer com o futuro. Só posso olhar o passado para controlar o presente.

A arte



A arte em todas as formas é a língua pela qual uma grande alma se expressa.

04 January, 2011

Criaturas da noite - O Início

Romênia, 1296


Esta noite parecia mais sombria que o habitual. Nuvens carregadas moviam-se no céu, ocultando a lua a maior parte do tempo, anunciando o temporal iminente. Era possível sentir o cheiro de terra úmida, que normalmente prenunciava a força da mãe natureza. Nada mais se ouvia além do agitar das folhas e galhos e o silvo do vento, formando um cenário estranho, como braços querendo enlaçar alguma coisa. Ao longe, uma coruja piou. Logo um som leve, mas insistente tornou-se perceptível. Alguém caminhava, os galhos secos estalando a cada passo, que apesar de cuidadoso, era apressado. Uma criatura espreitava a moça que caminhava pela floresta. Suas narinas dilatavam-se mais a medida em que se aproximava, furtivamente, sem ser notada. Podia sentir o cheiro do sangue fresco e tentava antecipar mentalmente o prazer de sugá-lo completamente, até secar as veias pulsantes. Só mais alguns instantes. A criatura não tinha pressa. O momento teria que ser perfeito. A presa passou e ela atacou. Imobilizá-la mediante a surpresa foi tarefa fácil, cravar os dentes no pescoço alvo e delicado, um prazer inimaginável. A criatura não saberia descrever a sensação. O júbilo do sucesso associado ao prazer físico era algo forte demais até mesmo para ela. Quando terminou, estava saciada. Uma paz de espírito e um deleite luxuriante envolveu-a com a sombra da noite. Passados uns minutos, o prazer sumiu. Somente uma sensação de vazio persistia e um breve arrependimento era tudo o que lhe restava. A criatura gritou. Um som horrendo, saindo da alma de alguém mortificado e desesperado. Repleto de amargura, tristeza e dor. Olhou ao redor. Seu olfato não sentiu nenhum odor de outro humano ou de qualquer animal próximo. O Conde olhou a vítima prostrada, sem cor e sem vida e seguiu seu caminho.

São Paulo, dias atuais

Ana acabava de entrar em sua sala no Jornal Extra Paulistano de São Paulo no décimo andar de um prédio da Av. Faria Lima. Não estava em um de seus melhores dias. Antes de chegar ao trabalho, inúmeros contratempos haviam acontecido sucessivamente e o dia ainda estava começando. Deixara as torradas queimarem, pisara no rabo de seu gato, derramara café em sua camisa quando já estava quase pronta para sair, sendo que a substituição da blusa fizera com que perdesse a hora. Como se não bastasse, o dia chuvoso arruinara completamente o penteado que se esmerara em fazer antes de sair. O que mais o dia lhe reservara?

- Droga! - Disse ao ver o bilhete sobre sua mesa.

Correu ao banheiro feminino para tentar ajeitar um pouco os cabelos e a aparência no geral antes de encontrar-se com seu chefe. Trabalhava no jornal há dois anos. Entrara como assistente e em pouco tempo, conseguira sua própria coluna no caderno de Variedades. Adorava escrever sobre eventos culturais, pois amava arte em geral e sempre encontrava um assunto ligado a teatro, exposições, literatura, cinema, para entreter seus leitores. O jeito jovial e despretensioso lhe rendera dois prêmios e a simpatia de todas as classes que liam o Extra Paulistano. Amava artes em geral e era uma devoradora de livros. Sua biblioteca particular era um de seus maiores orgulhos. Seus livros, alguns raros, eram fruto de um tempo dedicado aos sebos, às livrarias, pesquisando e adquirindo obras dos mais variados autores e gêneros. Amava cada minuto que passava nas várias lojas no centro da cidade adquirindo suas preciosidades.