22 March, 2007

Vila Rica

A noite avançava em Vila Rica. O silêncio imperava, tendo apenas o uivo do vento que de vez em quando soprava mais forte. Na rua, de repente, um grito. Mais uma leva de negros chegava ao vilarejo, e agora o som dos grilhões arrastavam-se rumo a alguma senzala. Mais força de trabalho para as minas. Fernando não conseguia conciliar o sono. Alguns meses antes, trocara o Rio de Janeiro pela Vila em busca de algo mais. Ainda lembrava-se de sua última conversa com o desembargador Alcântara: - Fernando, tens uma carreira brilhante pela frente! Tens consciência da loucura que queres fazer? - Sim, meu amigo. Estou decidido! Parto em viagem ainda esta semana! – Fernando olhou para Julião Alcântara desafiadoramente. - Gostaria de saber que bobagens andaram colocando nesta sua cabeça teimosa em Coimbra! Quando partiu, desejava arduamente a volta, ansioso em trabalhar para o Império, menino ainda que era, cheio de idéias e vontades! - Julião, nunca entenderás! Não vejo mais sentido em ficar atrás de uma mesa, em um gabinete, decidindo sobre coisas nas quais não acredito! Julião continuava inconformado. - Por que não vai a São Paulo, então? O que pretendes em uma terra de selvagens? Estás por acaso atrás do ouro? Não sabes que os veios esgotaram-se? Poucos são os que obtêm sucesso atualmente! Fernando caminhou até o amigo e colocou a mão sobre seu ombro esquerdo, olhando-o nos olhos. - Adeus, Julião! Escreverei a ti em breve, e contarei meus feitos e novidades. Minha ida a Vila Rica, nada tem com ouro, riqueza... Irei pela arte, Julião! Pela arte! O desembargador decidiu calar-se. Nada que dissesse, poderia restituir o juízo de seu bom amigo. Fernando estava firme em sua decisão. Fernando lembrou-se também do dia em que chegara. Para um lugar onde diziam existir tanta riqueza, o cenário era desolador. Os tempos não eram mais os mesmos e poucos ainda aventuravam-se em desbravar aquelas terras, palco de muitas lutas. Mineradores entravam em desespero ao depararem-se com as altas taxas de impostos que não podiam pagar. A comida era muito cara, já que ali nada era plantado. As provisões vinham de São Paulo, do Rio de janeiro, da Bahia... Nos primeiros dias, Fernando chegou a pensar que seu amigo estava certo. Jamais deveria Ter ido para lá. Filho de pais ricos, fazendeiros, não estava acostumado a passar necessidades. Seu pai era contra sua aventura pelo mundo e então ele decidira que se manteria sozinho, custasse o que custasse. Para sua sorte, uma semana após Ter-se instalado na Vila, em uma pensão onde alugara um quarto, conhecera um cavalheiro que foi a sua salvação. O casarão branco, de portas e janelas feitas de pesada madeira pintadas de azul, era simples, mas limpo e aconchegante. Na sala de visitas, onde fora feita a recepção, as tábuas largas e escuras do chão brilhavam. Lampiões de querosene tratavam de fornecer a claridade necessária ao ambiente, com seus móveis de madeira escura, rústicos, que ali, além de um balcão, constituíam apenas de dois bancos grandes, algumas poucas cadeiras e um tapete um tanto gasto no chão, para acomodar os viajantes enquanto não fossem atendidos, ou ainda para que pudessem ler ou fumar sossegados. E era neste ambiente que Fernando encontrava-se, na sala de visitas de sua senhoria, quando um homem, muito distinto pela elegância com que se vestia, aproximou-se dele. - Estás há pouco tempo em Vila Rica? Fernando assustou-se, mirando o recém-chegado e dobrando o folhetim que tinha nas mãos. Como demorava um pouco a responder, o outro continuou: - Perdoe minha falta de cortesia. Meu nome é Luís de Sá Saldanha, ao seu dispor. - Fernando Augusto de Lira. - Percebi que lia com interesse o pequeno jornal que tens em mãos... - Sim, estou tentando, além do que me contam, descobrir um pouco mais sobre o lugar onde escolhi para viver! O Sr. Saldanha sentou-se perto de Fernando, com a fisionomia simpática no rosto. Devia Ter seus trinta e cinco anos no máximo. A julgar sua vestimenta, um terno escuro, marrom, cabelos castanhos muito bem penteados, olhos no mesmo tom e um bigode fino que emprestava-lhe um ar sério, responsável, tinha certeza de não se tratava de um qualquer. Trazia um chapéu e uma bengala nas mãos. Fernando era bom em julgar o caráter das pessoas e não teve dúvidas de que tinha diante de si, um cavalheiro que olhava-o de frente, nos olhos, sem nada esconder. - É minerador? – Perguntou Luís. - Não! Sou escritor e poeta, embora tenha me diplomado nas leis em Coimbra! - Ora! Então temos aqui um doutor? Mas diga-me, que febre é esta que atormenta a mente de nossos jovens advogados, que insistem em tornarem-se poetas? - Isto eu não sei. Mas posso falar por mim! Eu era jovem e cheio de esperança e de idéias! Quando fui a Portugal estudar, pensei que poderia voltar e ajudar esta colônia, movido por um sentimento de justiça e de melhorar a vida das pessoas. Mas tudo mostrou-se muito diferente e digamos que fui arrebatado de um sonho bom para cair em puro pesadelo real! E eis que aqui encontro-me, a ler um folhetim em Vila Rica! E o senhor, que fazes para viver? Presumo que pela elegância que trazes, possui uma mina? O outro riu gostosamente da observação do recém-chegado. - Antes fosse, Sr. Fernando. Antes fosse! Sou fazendeiro. Possuo uma fazenda de cana de açúcar no interior de São Paulo. Um dia, movido pelas histórias que ouvia destas bandas, decidi vir e fiquei. O folhetim que lia me pertence. Importa-se se eu fumar? Aceita? – Fernando balançou a cabeça e aceitou o charuto que lhe era oferecido. O fazendeiro deu uma baforada e depois disse: - Se não és minerador, não vieste atrás de ouro, o que pretendes fazer em Vila Rica? - Ainda não sei. Nem mesmo sei se ficarei! A sociedade daqui é um tanto pior do que a que deixei no Rio de Janeiro. Francamente estou decepcionado! Vila Rica tem muitos problemas e ninguém se importa! Mais uma vez, Fernando provocou o riso de seu mais recente colega. - Sr. Fernando, por acaso tem aspirações políticas? - Pelo que tenho lido em teu folhetim, tanto quanto o senhor as têm! Confesso que o que tenho visto, têm inflamado meu peito de ideais e causas nobres. Porém, certas influências podem ser muito perigosas, especialmente no Brasil. O Marquês de Pombal tem sido muito duro conosco... - É verdade... – O Sr. Luís ficou pensativo por alguns minutos e ambos permaneceram em silêncio. – O que acha de ajudar-me com o folhetim? É claro que receberás uma quantia, embora eu não possa pagar-te grande soma, mas pelo menos teria dinheiro para necessidades básicas, como o aluguel e comida! Fernando sentiu seu coração iluminar-se. - Mas é claro que aceito! - Então estamos de acordo. Amanhã bem cedo passarei aqui para apanhar-te, Iremos conhecer a redação e impressão. Fernando assentiu. Ambos levantaram-se e apertaram-se as mãos, e o fazendeiro retirou-se.

No comments: