26 January, 2011

Criaturas da Noite - O início

- É um prazer conhecê-lo, Ivan. - Ana olhou para a sobrinha com um sorriso. - Então vamos, querida? Tenho certeza de que tem muitas coisas para me contar. - Depois olhou rapidamente para Ivan e abriu a bolsa para procurar o cartão do estacionamento. - Vocês precisam de carona? Quer que os deixe em algum lugar?

Ivan sorriu, sentindo o embaraço injustificado dela.

- Agradeço a oferta, mas um motorista vem nos buscar e já deve estar nos esperando. Estaremos hospedados nos Jardins e se não se importar, gostaria de entrar em contato amanhã ou depois para marcarmos um jantar. Poderia fazer a gentileza de apresentar a mim e meu sobrinho os bons restaurantes da noite paulistana.

Ana sentiu-se constrangida. Se dissesse não, poderia parecer descortês. De alguma forma, aquele homem a perturbava e não estava a fim de descobrir porquê, mas estava em uma saia justa. É claro que a sobrinha encontraria o namorado. A ela, não restava ter que aguentar algumas horas com o tio.

- Tudo bem. Creio que Alex deve ter o número... Mas espere! - Remexeu de novo na bolsa e encontrou um cartão, entregando-o a Ivan. Pode me encontrar no celular. - E pegando no braço de Elen. - Boa noite e nos vemos em breve.

Ivan balançou o cartão.

- Estarei ansioso. Boa noite Ana. Boa noite Elen.

Ana andava apressada e Elen reclamou. Só queria sair dali o mais rápido possível. E tinha que ter uma conversa longa com a sobrinha. Agora entendia porque ela quisera vir a São Paulo primeiro e não para a casa dos pais. Quando estavam dentro do carro, Ana deu a partida sem dizer uma palavra. Quando já estavam na estrada, sentido São Paulo, Ana olhou de relance para o carona.

- Quando vai começar a me dar explicações? - Foi a pergunta direta que fez.

- Tia... - Elen choramingou.

- Elen, sua mãe vai me matar quando souber desta história, pois ela me ligou pedindo que tirasse de sua cabeça a idéia de ficar aqui. Defendi dizendo que não tinha importância. Agora me diga: como vamos explicar a sua mâe que o motivo de querer ficar aqui é porque trouxe um namorado a tiracolo?

Elen suspirou. Sabia que enfrentaria algo assim. E preferia mil vezes que fosse com sua tia, do que com sua mãe.

- Tia... Pedi para vir para cá antes de saber que Alex viria. Ivan decidiu de última hora e Alex quis acompanhá-lo. Ele viria de qualquer forma e quis me acompanhar. Juro tia! Estávamos em sua casa no final de semana conversando depois do jantar e estava falando de você, do seu trabalho e mostrei uma foto sua no meu laptop. Ele disse que viria no mesmo vôo que eu e Alex decidiu que também viria...

- Está dizendo a verdade?

- Sim, tia.

Ana acreditou. Não havia motivos para desconfiar de Elen, que sempre lhe dissera tudo o que pensava e que lhe vinha a cabeça. Inclusive nunca tivera reservas para conversar com ela sobre qualquer assunto.

- Bem... Está com fome?

- Muita!

- Então vamos parar em algum lugar e comer algo. Amanhã, depois que tiver descansado um pouco, conversaremos sobre este assunto.



Ivan e Alex entraram no carro escuro luxuoso que os aguardava em frente a plataforma de desembarque. Ivan relutara em vir ao Brasil, mas depois de ver a foto da tia da namorada do sobrinho, não pensou mais em nada. De alguma forma, sabia que tinha de protegê-la, cuidar dela e não sabia por onde começar. A idéia de abrir uma filial de sua empresa no país não era má, já que era do conhecimento de toda a Europa a franca expansão e estabilidade da economia brasileira. Por que não investir? Mas o motivo principal era aquela morena de cabelos longos e olhos amendoados.

17 January, 2011

Criaturas da Noite - O início

Elen era sua única sobrinha. A irmã era bem mais velha que Ana e engravidar não fora fácil. Ao contrário de Ana, Amélia era uma mulher pacata, talhada para o lar, que não se conformava como Elen poderia ter escolhido o trabalho no lugar de uma família. Ana tinha trinta e dois anos e estava sozinha. Seus relacionamentos sempre foram difíceis. Ela se esforçava, mas quando acabavam em fracasso, achava que sempre tinha uma grande parcela de culpa. Seu nível de independência era alto demais para alguns homens. Isso os amedrontava.

Ana acabou seu café e voltou para o Jornal. A tarde passou tranqüila. Seu celular tocou perto das cinco da tarde. Ana deu um suspiro e atendeu a ligação.

- Olá Amélia...

- Ana! Tudo bem? Vou falar rápido, sei que ainda está no trabalho. Tente convencer Elen a vir para casa. Ficou tanto tempo longe... Isso não tem sentido!

Ana sabia que Amélia estava magoada com a filha.

- Amélia, posso tentar, mas não vou obrigá-la... Estamos no início de Janeiro e se ela quer passar as férias aqui, não vejo motivos para não fazê-lo. Por que você e Pedro não vem no final de semana?

- Verei com ele... - Ana ouviu o suspiro de Amélia.

- Amélia, Elen ficará bem. Ela agora está uma moça e com certeza voltou diferente. Te ligo depois de apanhá-la, está bem?

- Ok. Beijo.

- Beijo.

Ana desligou e ficou pensativa. Como estaria a sobrinha? Falavam-se muito pelo computador e Ana sabia que ela havia feito um curso de moda, falava um francês razoável, pois aplicara-se muito em aprender a língua e que havia cortado o cabelo com a última tendência parisiense. Um corte curto e repicado que caira-lhe muito bem. Ana olhou o relógio pela milésima vez naquele dia. Hora de buscar a sobrinha. Queria chegar com antecedência ao aeroporto, mas sabia que teria que fazer milagre. Como sair quase as seis da tarde, ter que enfrentar a Marginal e não pegar trânsito? Impossível! Olhou o mapa pelo compuatdor e decisiu fazer um caminho alternativo.

Enquanto aguardava no portão de desembarque do aeroporto, Ana observava a multidão que andava em todos os sentidos. Pessoas com suas bagagens, familiares buscando os seus, como ela própria. O auto falante já havia anunciado a chegada do vôo de Elen e ela sabia que a sobrinha deveria estar trazendo muita coisa depois de um ano. Uma meia hora depois, Ana a avistou. Elen estava linda, no final da adolescência, tornando-se uma bela mulher. Ana não deixou de notar que dois homens a acompanhavam. Um devia ter mais ou menos a idade de Elen e o outro, uns trinta e oito anos de idade. Ana prendeu a respiração. Nunca havia visto um homem tão bonito. Cabelos escuros, olhos penetrantes, de um tom amêndoa esverdeado, incomuns. O rapaz devia ser filho ou parente, pois era muito parecido com ele. A palidez tênue de ambos chamava um pouco a atenção, fazendo com que a aparência de ambos parecessem um pouco etérea. Falavam em francês com Elen, que quando avistou a tia, largou o carrinho com as malas e correu ao seu encontro para abraçá-la.

- Tia Ana! Que saudade!

- Elen, como está linda! Que saudade de você também! - Ana olhou-a dos pés a cabeça com orgulho e notou a aproximação dos dois homens que acompanhavam Elen.

- Tia, quero apresentar-lhe duas pessoas... Este é Alex Vlasi e seu tio, Ivan Vlasi. Conheci-os em Paris e Alex é meu namorado.

Ana gelou. Namorado? O que Amélia diria sobre isso? Em Paris? O nome dos dois não tinha nada de francês. Elen teria que lhe explicar tudo direitinho.

Alex aproximou-se dela e disse uma saudação em francês. Ela acenou com a cabeça. Porém, Ivan adiantou-se, pegou a mão que ela estendia e beijou-a sem desviar os olhos dos seus.

- Ivan ao seu dispor. - Disse ele em português, perfeito, com um sotaque que soou delicioso aos ouvidos de Ana.

- Tia, Alex não fala quase nada em português, mas Ivan veio ao Brasil porque vai abrir uma filial de sua empresa aqui. Por isso estudou português e o fala fluentemente.

- Oh! - Disse Ana. - E qual é sua nacionalidade, senhor Vlasi? Não possui um nome francês. Desculpe minha curiosidade.

Ele continuava olhando-a com aqueles olhos penetrantes.

- Nasci na França e vivi praticamente a vida toda lá, mas minha descendência é romena. E por favor, me chame de Ivan.

16 January, 2011

Criaturas da Noite - O início

Olhou o relógio rapidamente. Eram quase nove horas da manhã. Ana correu para a sala do editor chefe, esperando levar um puxão de orelhas pelo atraso. Porém, surpreendeu-se ao ver que ele estava de bom humor e pronto para sair.


- Ana! Que bom que poderemos falar antes que eu saia. Preciso de uma de suas geniais matérias para publicar ainda este mês. Escolha o tema que quiser... Qualquer um! Gostaria de ter novamente um jornalista premiado. Mas saiba que pedi o mesmo a toda equipe... Portanto, o esforço será em dobro.


Ana sorriu. Prêmios aos jornalistas rendiam mais vendas, mais leitores, obviamente mais dinheiro.


- É claro Paulo! Pode deixar comigo. Vou arrasar!


Ana pensou que na verdade não estava muito certa disso. Escrever era pura inspiração e mesmo que tivesse um bom tema, o que ainda não tinha, não significava que apenas isso bastasse para uma grande matéria. Era mais do que isso. Escrever exigia as palavras certas nos momentos exatos para prender o leitor. E ultimamente a inspiração a havia abandonado. Talvez porque seus dias não estivessem sendo muito alegres ultimamente.


A hora do almoço chegou depressa. Ana andava pela calçada observando o trânsito do meio do dia. Esta cidade nunca parava. Carros e motos por todos os lados em uma luta desenfreada por espaço e por chegar primeiro. Ana já havia feito uma matéria sobre o assunto quando cobriu um jornalista em férias. Os brasileiros insistiam em usar seus carros como armas. Logo chegou ao restaurante por quilo que ficava próximo ao Jornal, onde sempre almoçava quando estava no escritório e não na rua, procurando temas. Este dia, apesar de ter iniciado um pouco conturbado, era especial. Ana iria até o aeroporto de Cumbica buscar sua sobrinha Elen que chegaria da França dali algumas horas. A garota de dezessete anos passara um ano estudando no país e insistira em ficar com ela antes de seguir viagem para a casa dos pais no interior do estado, em Ribeirão Preto. Sua irmã Amélia e seu cunhado Pedro haviam se mudado quando ele fora transferido pela empresa em que trabalhava. O cargo dele era alto e o salário excepcionalmente bom. Por isso conseguira enviar a filha para a Europa.

Pensamento do dia...

Não sei o que fazer com o futuro. Só posso olhar o passado para controlar o presente.

A arte



A arte em todas as formas é a língua pela qual uma grande alma se expressa.

04 January, 2011

Criaturas da noite - O Início

Romênia, 1296


Esta noite parecia mais sombria que o habitual. Nuvens carregadas moviam-se no céu, ocultando a lua a maior parte do tempo, anunciando o temporal iminente. Era possível sentir o cheiro de terra úmida, que normalmente prenunciava a força da mãe natureza. Nada mais se ouvia além do agitar das folhas e galhos e o silvo do vento, formando um cenário estranho, como braços querendo enlaçar alguma coisa. Ao longe, uma coruja piou. Logo um som leve, mas insistente tornou-se perceptível. Alguém caminhava, os galhos secos estalando a cada passo, que apesar de cuidadoso, era apressado. Uma criatura espreitava a moça que caminhava pela floresta. Suas narinas dilatavam-se mais a medida em que se aproximava, furtivamente, sem ser notada. Podia sentir o cheiro do sangue fresco e tentava antecipar mentalmente o prazer de sugá-lo completamente, até secar as veias pulsantes. Só mais alguns instantes. A criatura não tinha pressa. O momento teria que ser perfeito. A presa passou e ela atacou. Imobilizá-la mediante a surpresa foi tarefa fácil, cravar os dentes no pescoço alvo e delicado, um prazer inimaginável. A criatura não saberia descrever a sensação. O júbilo do sucesso associado ao prazer físico era algo forte demais até mesmo para ela. Quando terminou, estava saciada. Uma paz de espírito e um deleite luxuriante envolveu-a com a sombra da noite. Passados uns minutos, o prazer sumiu. Somente uma sensação de vazio persistia e um breve arrependimento era tudo o que lhe restava. A criatura gritou. Um som horrendo, saindo da alma de alguém mortificado e desesperado. Repleto de amargura, tristeza e dor. Olhou ao redor. Seu olfato não sentiu nenhum odor de outro humano ou de qualquer animal próximo. O Conde olhou a vítima prostrada, sem cor e sem vida e seguiu seu caminho.

São Paulo, dias atuais

Ana acabava de entrar em sua sala no Jornal Extra Paulistano de São Paulo no décimo andar de um prédio da Av. Faria Lima. Não estava em um de seus melhores dias. Antes de chegar ao trabalho, inúmeros contratempos haviam acontecido sucessivamente e o dia ainda estava começando. Deixara as torradas queimarem, pisara no rabo de seu gato, derramara café em sua camisa quando já estava quase pronta para sair, sendo que a substituição da blusa fizera com que perdesse a hora. Como se não bastasse, o dia chuvoso arruinara completamente o penteado que se esmerara em fazer antes de sair. O que mais o dia lhe reservara?

- Droga! - Disse ao ver o bilhete sobre sua mesa.

Correu ao banheiro feminino para tentar ajeitar um pouco os cabelos e a aparência no geral antes de encontrar-se com seu chefe. Trabalhava no jornal há dois anos. Entrara como assistente e em pouco tempo, conseguira sua própria coluna no caderno de Variedades. Adorava escrever sobre eventos culturais, pois amava arte em geral e sempre encontrava um assunto ligado a teatro, exposições, literatura, cinema, para entreter seus leitores. O jeito jovial e despretensioso lhe rendera dois prêmios e a simpatia de todas as classes que liam o Extra Paulistano. Amava artes em geral e era uma devoradora de livros. Sua biblioteca particular era um de seus maiores orgulhos. Seus livros, alguns raros, eram fruto de um tempo dedicado aos sebos, às livrarias, pesquisando e adquirindo obras dos mais variados autores e gêneros. Amava cada minuto que passava nas várias lojas no centro da cidade adquirindo suas preciosidades.