22 March, 2007

Enquanto houver um entardecer

Rüdersdorf - Setembro de 1933 Era uma bonita tarde de Outono na Alemanha. As árvores tingiam a paisagem com suas folhas que pareciam Ter sido enferrujadas pelo tempo, onde um tom alaranjado dava um toque colorido nas casas cinzentas. Outras emprestavam às ruas um tapete de folhas secas e caídas, onde o mestre responsável pela decoração era o vento que soprava tranqüilo, encarregando-se do transporte para suas frondosas amigas. Os pássaros cantavam, aninhados em galhos ou nos fios de postes, como um coral atiçado, alegre e afinado. Pessoas voltavam de seus trabalhos, algumas apenas caminhavam, outras em suas casas, aprontavam-se para receber a noite. Já houve tempos melhores. Mesmo o bonito cenário que se descortinava naquela cidade, não apagava a crise da nação. Depois da Primeira Grande Guerra, tudo estava muito difícil. Embora não houvesse uma reconstrução física, havia mais do que isso para ser adquirido novamente: o orgulho. O momento político era instável. Três partidos travavam entre si uma luta ferrenha pelo poder. Um deles estava em ascensão e seria responsável por uma grande mudança em toda a Europa.
A família Levi vivia em um bairro onde a maioria das casas pertencia aos judeus. O patriarca era proprietário de um próspero comércio na região, o que lhes possibilitava uma vida com conforto e até certo ponto, burguesa. Uma vida, que muitas famílias alemãs não estavam conseguindo. Neste dia, uma Sexta-feira, a filha mais velha do casal, ao chegar em casa, notou as preocupações estampadas no rosto de sua mãe. A Sra. Levi estava na cozinha com uma criada, preparando a refeição para o Shabbat. A filha, Marta, tinha dezesseis anos. Um profundo pesar, sem saber ao certo o motivo, oprimiu seu coração jovem. Quando o pai chegou, juntamente com seu irmão mais novo, a mesa estava posta e logo o sol iria se pôr.
- Mamãe, o que está acontecendo? Algo não está bem?
- Não se preocupe querida. Seu pai e eu daremos um jeito! Onde está Friederich? Já lavaram as mãos?
- Lá em cima, estudando! Já lavei e papai também. Vou chamá-lo. - O que há com seu irmão? Tem estado muito calado... – O rosto da Sra. Levi refletia toda a sua apreensão com o filho. - Não sei, mamãe. Friederich não tem se sentido muito bem nestes últimos dias. Marta chamou o pai e o irmão e a mãe acendeu as duas velas brancas postas sobre a mesa, e seu pai iniciou o Kiddush sobre o vinho e os challahs. Após todas as bênçãos e os cerimoniais, iniciaram o jantar em silêncio. Normalmente aproveitavam esta ocasião para refletirem em família, agradecer a Deus e idealizarem as boas ações e a boa conduta para a próxima semana. Mas nesta noite, o silêncio imperou, mostrando a todos que algo estava por vir. Marta entendeu que algo estava mudando e que talvez aqueles dias nunca mais fossem como antes. Marta pegou seu bordado e continuou o trabalho. Dois meses haviam se passado desde que tivera aquele pressentimento ruim. Não entendia a agitação dos pais, que conversavam entre si, temerosos de algo. Olhou mais uma vez para a mesa, onde estavam sentados, escrevendo e discutindo em meio à muitos papéis. Também não entendia porque ela e seu irmão não podiam mais ir à escola, e quase já não saíam de casa. Estudavam em grupos judaicos, com outros garotos e garotas de seu bairro. O que freqüentavam, ficava atrás da sinagoga da região. Ela ainda tinha viva na memória as lembranças de garotos chamando-os de imundos e atirando-lhes pedras sem nenhuma explicação razoável quando voltava do açougue outro dia. Sabia que já tinha idade suficiente para saber o que estava acontecendo e quem sabe ajudar os pais, mas o silêncio deles magoava-a profundamente.
Colocou vagarosamente o bordado de lado e levantou-se, esticando o vestido amassado. Com sua pele alva e os cabelos castanhos claros, levemente cacheados, da mesma cor dos olhos grandes, tinha uma beleza fora do comum. Já possuía um corpo esguio de mulher, mas com a ingenuidade própria de sua idade. Somado ao seu aspecto bonito, ainda existia a alma boa e caridosa, responsável, preocupada com a família. Marta sonhava com seu futuro como toda moça normal. Resplandecia nela toda a candura, meiguice e valores que desde cedo, havia herdado de seus pais. Ela caminhou até a cozinha e sentou-se perto do fogão, ligando o rádio. “Já é hora de tomarmos uma decisão e acabarmos com essa opressão que estamos sofrendo! Somos uma raça superior e exigimos o devido respeito! Franceses e ingleses julgam-se melhores que nós, mas nós sabemos que somos melhores! São os germânicos! Os alemães! A raça pura ariana! E quem tem tomado conta de nosso império? Sim, porque a Alemanha é um império! Os judeus, que querem manter a Alemanha subordinada e fraca! Onde está nosso dinheiro? Com essa raça de fermento em decomposição! Os judeus são o mal, e o mal deve ser extirpado da face da terra! Eu, Adolf Hitler, digo à vocês, alemães: devemos instituir um estado novo!”
Marta desligou o rádio horrorizada. Quem era esse homem que falava coisas horríveis sobre os judeus? Nada daquilo era verdade. Eles amavam a Alemanha, era seu lar. Isso explicava porque vira tantos militares nas ruas. Ela tinha bem viva na memória a suástica em bandeiras colocadas em várias fachadas de órgãos públicos e algumas casas. Eram soldados deste tal de Hitler, como os garotos que atiraram pedras outro dia, usando uniformes também com a suástica. Que segundo seu pai, faziam parte de algo que ela não sabia exatamente o que era e se chamava HJ. Era isso o que os alemães faziam com seus filhos. Sim... Já ouvira falar deste Hitler. Liderava um partido, antes de o presidente declará-lo Chanceler Alemão. Mas por que este discurso torpe? Parou na porta da sala e olhou para os pais.

1 comment:

Anonymous said...

Crica! Este livro tá ótimo! Me manda por e-mail mais algumas páginas!
Berti