22 March, 2007

O Mosteiro

Os sinos badalavam as cinco horas da tarde daquele dia. A construção de pedra silenciosa destacava-se na colina, onde os últimos raios de sol brincavam no cinza das paredes altas. Árvores circundavam o mosteiro, formando quase uma barreira verde de proteção. O vilarejo mais próximo dali, estava há sete dias de caminhada, e raramente alguém passava por aquelas bandas. Vez ou outra, um viajante perdido pedia abrigo aos monges e quase sempre, eram bem recebidos. A esta hora, um grupo estaria estudando na biblioteca, outro estaria na capela e um outro ainda, terminando suas tarefas diárias. Todos os dias, as rotinas repetiam-se. De manhâ, a missa, a oração e depois os afazeres de cada um. A vida dentro daquele recanto, transcorria sossegada e monótona. Frei Anselmo, circundava o jardim lendo alguns salmos em voz baixa, como fazia todas as tardes. Em volta do pátio, longos corredores e bancos de madeira maciça envernizados, era tudo o que tinham ao redor. O mosteiro era bastante simples, mas de uma limpeza impecável. O mundo parecia não existir para aqueles homens que ali viviam, enclausurados a tantos anos, dedicando suas vidas a Deus. Frei Anselmo olhou para o céu. O sol estava quase desaparecendo e tons vermelhos e laranjas tingiam o que restava da vista do poente. Agradeceu a Deus, por um dia tão maravilhoso e seus olhos umedeceram-se ligeiramente. Olhou novamente para o livro em suas mãos. Tantos anos de sua vida dedicara às palavras do Senhor... Mas aquele era o seu mundo, e o jovem Armando perpetuaria seus ensinamentos. Sim, ele era seu pupilo predileto. Ensinava-lhe tudo o que aprendera sobre a religião durante os quarenta anos que ali permanecera. Sim, era hora de deixar o seu legado. Precisava desesperadamente ensinar o que sabia. A cada dia, sentia seu corpo mais cansado e já andava e respirava com alguma dificuldade. Não era o monge mais velho da ordem, mas sem dúvida, era o mais querido. Quantas e quantas vezes não aconselhara os jovens monges em suas dúvidas vocacionais? Muitos o ouviram, outros perderam-se pelo mundo afora, seguindo seus caminhos, longe da vocação. Era antes de tudo, um sábio. De sua boca, jamais ouviriam uma blasfêmia, ou uma palavra de repreensão. Procurava sempre se amparar na justiça divina. E todos ficavam extasiados com o seu sermão durante a missa matinal. E agora, de uma hora para outra, poderiam perder seu mestre e guia espiritual. Armando era um dos monges que mais acompanhava Frei Anselmo em suas horas intermináveis de estudo e reflexão. Costumavam conversar horas e horas sobre os mais variados temas, discorrendo questões e respostas para o sentido da vida e seus fatos. Embora jovem, tinha um semblante tranqüilo, sereno, e já carregava dentro de si, um conhecimento grandioso sobre a religião. Assim como seu mentor, era sensato e justo. Entrara para a ordem aos dezesseis anos e agora, aos trinta, era capaz de fazer um sermão tão apoixonado e eloqüente, que podia fazer qualquer um chorar de emoção. E o velho homem orgulhava-se disso. Afinal, seu trabalho não teria sido em vão. Desde que entrara para o mosteiro, Armando nunca mais vira o mundo. Lembranças de sua infância, pareciam longínquas. Não tinha idéia de como o mundo estava, as pessoas... Raramente recebia uma carta, e quando esta chegava, era de seu irmão, que vivia na Suiça. E mesmo assim, André pouco revelava, enfatizando apenas que sua família estava bem. Frei Anselmo olhou mais uma vez para o cé. Já estava quase escuro. Era hora de recolher-se em sua cela e rezar pelas almas da terra. Antes dirigiu-se a Armando, que ia em direção ao pátio interno. - Armando... Gostaria de trocar algumas palavras com você antes de me recolher. - Estou a seu dispor, Frei Anselmo.

1 comment:

PATTY RICARTES said...

muito bom, vc é fera mesmo