Elen era sua única sobrinha. A irmã era bem mais velha que Ana e engravidar não fora fácil. Ao contrário de Ana, Amélia era uma mulher pacata, talhada para o lar, que não se conformava como Elen poderia ter escolhido o trabalho no lugar de uma família. Ana tinha trinta e dois anos e estava sozinha. Seus relacionamentos sempre foram difíceis. Ela se esforçava, mas quando acabavam em fracasso, achava que sempre tinha uma grande parcela de culpa. Seu nível de independência era alto demais para alguns homens. Isso os amedrontava.
Ana acabou seu café e voltou para o Jornal. A tarde passou tranqüila. Seu celular tocou perto das cinco da tarde. Ana deu um suspiro e atendeu a ligação.
- Olá Amélia...
- Ana! Tudo bem? Vou falar rápido, sei que ainda está no trabalho. Tente convencer Elen a vir para casa. Ficou tanto tempo longe... Isso não tem sentido!
Ana sabia que Amélia estava magoada com a filha.
- Amélia, posso tentar, mas não vou obrigá-la... Estamos no início de Janeiro e se ela quer passar as férias aqui, não vejo motivos para não fazê-lo. Por que você e Pedro não vem no final de semana?
- Verei com ele... - Ana ouviu o suspiro de Amélia.
- Amélia, Elen ficará bem. Ela agora está uma moça e com certeza voltou diferente. Te ligo depois de apanhá-la, está bem?
- Ok. Beijo.
- Beijo.
Ana desligou e ficou pensativa. Como estaria a sobrinha? Falavam-se muito pelo computador e Ana sabia que ela havia feito um curso de moda, falava um francês razoável, pois aplicara-se muito em aprender a língua e que havia cortado o cabelo com a última tendência parisiense. Um corte curto e repicado que caira-lhe muito bem. Ana olhou o relógio pela milésima vez naquele dia. Hora de buscar a sobrinha. Queria chegar com antecedência ao aeroporto, mas sabia que teria que fazer milagre. Como sair quase as seis da tarde, ter que enfrentar a Marginal e não pegar trânsito? Impossível! Olhou o mapa pelo compuatdor e decisiu fazer um caminho alternativo.
Enquanto aguardava no portão de desembarque do aeroporto, Ana observava a multidão que andava em todos os sentidos. Pessoas com suas bagagens, familiares buscando os seus, como ela própria. O auto falante já havia anunciado a chegada do vôo de Elen e ela sabia que a sobrinha deveria estar trazendo muita coisa depois de um ano. Uma meia hora depois, Ana a avistou. Elen estava linda, no final da adolescência, tornando-se uma bela mulher. Ana não deixou de notar que dois homens a acompanhavam. Um devia ter mais ou menos a idade de Elen e o outro, uns trinta e oito anos de idade. Ana prendeu a respiração. Nunca havia visto um homem tão bonito. Cabelos escuros, olhos penetrantes, de um tom amêndoa esverdeado, incomuns. O rapaz devia ser filho ou parente, pois era muito parecido com ele. A palidez tênue de ambos chamava um pouco a atenção, fazendo com que a aparência de ambos parecessem um pouco etérea. Falavam em francês com Elen, que quando avistou a tia, largou o carrinho com as malas e correu ao seu encontro para abraçá-la.
- Tia Ana! Que saudade!
- Elen, como está linda! Que saudade de você também! - Ana olhou-a dos pés a cabeça com orgulho e notou a aproximação dos dois homens que acompanhavam Elen.
- Tia, quero apresentar-lhe duas pessoas... Este é Alex Vlasi e seu tio, Ivan Vlasi. Conheci-os em Paris e Alex é meu namorado.
Ana gelou. Namorado? O que Amélia diria sobre isso? Em Paris? O nome dos dois não tinha nada de francês. Elen teria que lhe explicar tudo direitinho.
Alex aproximou-se dela e disse uma saudação em francês. Ela acenou com a cabeça. Porém, Ivan adiantou-se, pegou a mão que ela estendia e beijou-a sem desviar os olhos dos seus.
- Ivan ao seu dispor. - Disse ele em português, perfeito, com um sotaque que soou delicioso aos ouvidos de Ana.
- Tia, Alex não fala quase nada em português, mas Ivan veio ao Brasil porque vai abrir uma filial de sua empresa aqui. Por isso estudou português e o fala fluentemente.
- Oh! - Disse Ana. - E qual é sua nacionalidade, senhor Vlasi? Não possui um nome francês. Desculpe minha curiosidade.
Ele continuava olhando-a com aqueles olhos penetrantes.
- Nasci na França e vivi praticamente a vida toda lá, mas minha descendência é romena. E por favor, me chame de Ivan.

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